Luciano Pires - O Sexagenário



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Fila de embarque no voo para o nordeste. Nos alto falantes, algo parecido com “passageiros do voo x para a cidade y, vamos iniciar os procedimentos de embarque. Na fila da direita as prioridades reconhecidas por lei, seguidas dos portadores dos cartões x,y,z.” Prioridades reconhecidas por lei são gestantes, pessoas com problemas de locomoção e com mais de 60 anos. Eu tinha acabado de completar 60 anos, entrei na fila. Enquanto me aproximava do portão, pude sentir dezenas de olhares fulminantes. Eu não tenho cara de 60, não me visto como quem tem 60, não ando como que tem 60, aparento ter menos. Ao me ver na fila, a moça da companhia aérea veio na minha direção:

– Senhor, esta é a fila de prioridades.

– Eu sei.

– O senhor está com eles? (apontando para um casal de velhinhos na minha frente).

– Não.

– Então o senhor tem de ir para a outra fila. Aqui é prioridade por lei.

– Eu tenho 60 anos.

– Ah…

Ela vira as costas e vai embora, mas continuo a sentir o fuzilamento dos olhares dos passageiros nas outras filas, provavelmente xingando de todos os nomes o espertinho que furava a fila dos velhinhos. E me bateu uma sensação de culpa, deu vontade de mostrar meu RG pra todo mundo. Bateu a necessidade de me justificar… Cara, mas é meu direito!

Convenhamos: o embarque e desembarque em aviões não é uma coisa agradável, é um processo jurássico, especialmente no Brasil. Todo mundo quer ser o primeiro a entrar, tem uma turma confusa, o avião é apertado, se bobear ocupam seu espaço de bagagem, é um saco. Se surgir a chance de facilitar, vou usar. Por isso sempre fiz questão e usar a fila de quem tem o cartão ouro de milhagem das companhias aéreas, a fila que entra logo depois dos velhinhos. Nunca me questionei ou senti necessidade de me justificar, afinal eu estava usando um direito adquirido, pelo qual paguei ao voar as milhas necessárias para usar a fila de prioridades.

Mas desta vez era diferente. Passar à frente dos outros porque paguei por isso nunca me trouxe qualquer constrangimento. Era mérito. Fiz por merecer e tinha em mãos meu cartão. Mas passar à frente porque tenho idade suficiente para isso, me constrangeu, mesmo eu tendo em mãos meu documento de identidade. Eu não me esforcei pra ficar velho… Envelhecer não é mérito.

Pensei muito a respeito e cheguei à conclusão. A questão é que ninguém precisa parecer ter o cartão de milhagens, mas precisa parecer ter mais de 60. Parecer ter. Aparência. O que me incomoda é o olhar de censura dos que ignoram a idade que eu tenho. Me incomoda o que os ignorantes pensam de mim! Me incomoda a certeza de que a maioria acha que sou mais um pequeno corrupto me aproveitando da situação!

E aí vem uma questão moral: devo exercer um direito mesmo não precisando dele? Ué, mas isso não se aplica ao direito do cartão de milhagem também?

Bem… to mergulhado nessa reflexão. Enquanto não resolvo a questão, tomei uma providência. Mandei fazer uma camisa com a inscrição: “tenho mais de 60” pra usar quando viajar de avião.

Luciano Pires

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