Os Cães de Pavlov

 dog

Com o saco cheio de tanta notícia ruim tomei a decisão de publicar durante um dia inteiro apenas boas notícias no Facebook. Um desafio. Um post por hora durante todo o dia, só com coisas legais. E cumpri, no dia 22 de Janeiro de 2015, uma experiência interessante que provocou algumas reflexões.

Primeira: não foi fácil. As notícias boas estão perdidas no meio de desgraças, malfeitos e deslizes. Encontrar algo que realmente vale a pena exige um esforço extra. É muito mais fácil falar do que está errado, das tragédias, incompetências e roubos nossos de cada dia.

Segunda: o fiasco dos posts. Poucos comentários, poucos compartilhamentos, poucos “likes”. Um fiasco. Coisa boa não dá audiência.

Terceira: a reação das pessoas. Essa foi a que realmente me chocou. Notícias boas são recebidas com ceticismo, com ironia, com desprezo. Basta ler os comentários, especialmente se as notícias envolverem políticos.

Publiquei que o governador e o vice do Rio Grande do Sul abriram mão do aumento de salários. Isso é uma boa notícia! E lá veio a enxurrada de comentários dizendo que só o fizeram pela pressão, que o governador é isso e aquilo… Nenhum argumento que fizesse com que a boa notícia deixasse de ser boa notícia, mas todos desviando o foco do acontecimento em si para as más intenções, os mal feitos, as atitudes não confiáveis que estariam por trás dos fatos. E a curtição da boa notícia é apagada pela raiva contra os malditos políticos.

Lembrei então dos Cães de Pavlov.

Ivan Pavlov era um médico russo que fez um experimento interessante cerca de um século atrás. Reuniu alguns cães e começou a condicioná-los. Cada vez que chegava com comida, Pavlov tocava uma sineta, até um ponto em que, mesmo sem comida, bastava acionar a sineta para que os cães começassem a salivar. Ficavam com a boca cheia d´água só de ouvir o sino. Pavlov desenvolveu a ideia dos reflexos condicionados.

Todos temos reflexos condicionados, a maioria deles naturais. Diante da visão de um cachorro rosnando com os dentes à mostra, imediatamente ficamos com os músculos tensos. Estamos condicionados a preparar a fuga ou o enfrentamento diante de uma situação de perigo. No cinema é assim também: de tanto assistir a filmes de suspense, estamos condicionados. Quando aparece aquela musiquinha, já preparamos o susto. O gato vai pular! Mas também podemos ser intencionalmente treinados a reagir de forma condicionada a determinados estímulos.

O que aconteceu com nossa relação com as mídias foi isso então, anos de condicionamento recebendo más notícias, quebrando expectativas, vivendo desilusões nos treinaram para o que somos hoje: uma sociedade desconfiada, cética, que sempre espera o pior. Quase não há mais espaço para o deleite, para curtir uma boa nova, para acreditar que alguém está fazendo algo bom. O otimista, o que acredita, o que confia no bom, no belo, no justo, é um otário.

Parece impossível baixar a guarda e simplesmente curtir, saborear a notícia boa e compartilhá-la para que, por exemplo, outros governadores também abram mão dos aumentos. Há que se buscar o sofrimento, pintar o pior cenário, dizer que aquela boa notícia não merece crédito.

Como Cães de Pavlov, estamos condicionados a babar.

Isso sim é que é herança maldita.

Não passarão

brainAcabo de completar 40 (quarenta) horas sem luz. Em Moema, bairro nobre da maior cidade da América do Sul.”

O que o autor da frase quis dizer?

a) que ele é rico pois mora num bairro nobre

b) que bairros nobres têm prioridade sobre os bairros não nobres no atendimento dos serviços públicos

c) que se um bairro nobre está assim, imagine os não nobres

d) que ele paga um baita imposto e não recebe serviços de qualidade

e) que ele está há 40 horas sem luz no bairro

f) que o autor é superior a quem não mora em bairro nobre

Escolha aí a alternativa. Eu espero.

Escolheu? Muito bem. Essa frase publiquei como um post em meu Facebook. No momento em que digitei “bairro nobre”, uma voz apareceu sussurrando: “vai dar merda”. E me peguei hesitando.

Qual a razão de dar merda? A palavra “nobre”, que assim como “rico”ou “elite” está no radar do politicamente correto. Dizer que alguém (e agora algo!) é nobre, rico ou elite é relegar todos os que não são a um patamar inferior, como uma casta de sem direitos que ali são jogados exatamente pelo nobres, ricos e elites para serem explorados, humilhados e descartados.

De onde vem isso?

Desconfio que da mesma França do Charlie Hebdo, onde uma revolução em 1789 consolidou a imagem do rico-elite-nobre como mau e o pobre-miserável-proletário como bom. Depois um alemão barbudo elevou esse conceito a ideologia e… bem, escrever “bairro nobre” em 2015 é pedir pra tomar porrada dos patrulheiros.

Aquele momento de hesitação me fez subir o sangue.

Em seguida li que a CNN e o New York Times anunciaram em editoriais que não permitiriam a reprodução da capa do Charlie Hebdo que traz uma imagem de Maomé, pois ela é ofensiva ao Islã. Mas charges ofensivas sobre católicos, budistas e qualquer outra vertente religiosa cujos seguidores não fuzilam e explodem pessoas, continuarão a ser publicadas.

Para aquela voz que me aconselhou a prudentemente não escrever “bairro nobre”, a definição da Wikipedia “No Brasil e em Portugal, chama-se de bairro nobre a área de uma determinada cidade caracterizada pela presença de uma maioria de moradias de alto custo”, não vale. Intimidada pela patrulha, a voz entende “bairro nobre” como uma arrogante forma de dizer “eu sou rico, você é pobre; eu posso mais, você pode menos; eu valho mais, você vale menos”.

Felizmente a razão voltou e escrevi o “bairro nobre”, sim senhor. Publiquei e os patrulheiros apareceram, evidentemente. O post está aqui: http://on.fb.me/158WfyT .

Guardadas as proporções, da mesma forma como os terroristas fizeram com a CNN e o NYT, os patrulheiros do politicamente correto querem me pautar.

Não passarão.

Ah, a resposta correta pode ser c), d) ou e). Se você escolheu outra, é bom se tratar. O preconceito está em você.

Os vivos e os mais vivos 2

os vivos e os mais vivosOutro daqueles artigos antigos, este é de 2010, mas tá valendo com uma pequena atualização.

Já se passaram 25 anos desde que eu – aos 33 anos de idade – pude exercer meu voto para Presidente pela primeira vez. Pra quem tem memória curta, a história do Brasil foi assim: Fernando Collor em 1989, FHC em 1994 e 1998, Lula em 2002 e 2006 e Dilma em 2010. Só tivemos seis oportunidades para praticar o exercício do voto, esta é a sétima. Parece muito pouco, não é? Por isso temos que estar antenados.

Quero repetir a seguir algumas pequenas reflexões e idéias de textos que já publiquei antes, mas que são necessários para o que vem pela frente neste ano de eleições:

- Não existe voto de branco, voto de negro, voto de pobre ou voto de rico. Diante da urna, todo mundo é igual. Esse é o exercício maior da democracia, que deve ser festejado e defendido dos que tentam manipulá-lo.

- O voto nulo é uma opção válida, democrática e que deve ser respeitada como um direito de cada um. Mas se 70% dos eleitores votarem nulo, será eleito o presidente que os 30% que votaram válido quiserem. Pense nisso.

- Os profissionais esfregarão em nossa cara as alianças mais esdrúxulas, apresentadas como tiradas estratégicas. Desfilarão realizações de um lado e desmentidos de outro. Novos malandros vão aparecer. Velhos malandros vão reaparecer. E desfilarão mentiras em horário nobre. Tudo convenientemente “dudificado”. “Dudificar”: seguir a cartilha do Duda, criando embalagens irresistíveis para produtos envelhecidos, desonestos, perigosos...

- Enfrentaremos poderosas máquinas de criação de mentiras simbólicas. Ouviremos que as privatizações foram ruins, que “nunca antes neste país” se fez isto e aquilo, que o PAC existe, que fulano ou cicrano nunca foram condenados, que o chefe “não sabia” e todas aquelas armações da linguagem que transformam “sins” em “nãos”.

Este é o momento em que você será guiado por seus valores e convicções. Lembre-se: você tem vontade própria, não é uma máquina a serviço de um partido ou de uma ideologia. Você tem o direito de escolher o que julgar melhor para você e para o país. Portanto, faça essa escolha de maneira consciente. Examine todos os lados. Cuidado com as unanimidades e com as certezas absolutas. Cuidado com teses que prometem o céu no futuro provocando o inferno no presente. Cuidado com quem reescreve o passado. Cuidado com quem transforma convicções políticas em fervor religioso.

Minha sugestão é que, diante do bombardeio de notícias e opiniões, você faça cinco perguntas:

1. Quem criou essa mensagem?

2. Que técnicas criativas foram usadas para chamar minha atenção?

3. Se eu não fosse quem sou, não morasse onde moro, não tivesse a educação que tive, como é que eu entenderia essa mensagem?

4. Que valores, estilos de vida e pontos de vista estão representados ou foram omitidos dessa mensagem?

5. Por que essa mensagem está sendo enviada?

Essas cinco perguntinhas não garantem nada, mas criam um estado de alerta para as armadilhas marqueteiras postas à nossa frente diariamente pelos profissionais de comunicação a serviço dos partidos e candidatos.

E, para finalizar, lembre-se sempre de Aparício Torelly, nosso Barão do Itararé:

Os vivos serão sempre, e cada vez mais, governados pelos mais vivos.

Luciano Pires

O ostracismo social

ostracismo-social-iEm 2013, o senador Paraguaio Victor Bogado foi acusado de contratar Gabriela Quintana como babá, recebendo salário mensal equivalente a R$ 8.200. Metade do valor saía da folha de pagamentos do Legislativo e metade do caixa da Itaipu Binacional, cujo controle é partilhado entre as empresas estatais de energia Eletrobras e Andes.

Gabriela passou a ser conhecida como a “babá de ouro” do senador paraguaio. Quando o Ministério Público decidiu processar o Senador, 23 de seus 45 colegas votaram contra a retirada da imunidade parlamentar, o que causou indignação nacional. E a reação popular foi ótima: o ostracismo social.

Diversas empresas publicaram anúncios pedindo a renúncia dos 23 que confundiam imunidade com impunidade, e cartazes com seus nomes foram afixados na entrada de postos de gasolina, shopping centers e cinemas, informando que não eram bem-vindos. As senadoras Blanca Fonseca e Zulma Gómez foram impedidas de entrar em restaurantes e o senador Óscar Daher foi expulso de uma pizzaria aos gritos de “fora ladrão”. Até os táxis aderiram! Em Santa Catarina, onde os políticos paraguaios costumam passar as férias de verão, alguns hotéis expuseram cartazes com os dizeres: “Os 23 não são bem-vindos.”

A pressão foi tanta que os senadores voltaram atrás e autorizaram o processo contra o criador da “babá de ouro”.

Viu que genial? “Ostracismo social”, sem precisar botar fogo em ônibus, sair na porrada com a polícia, invadir prédios públicos.... apenas a reação legítima da sociedade contra quem não demonstra dignidade no exercício de seu mandato, chamando-os pelos nomes que ele têm.

Contei essa história numa de minhas palestras e a reação que ouvi de várias pessoas foi a esperada: “No Brasil isso não dá certo. Ninguém vai se importar.”

Ninguém vai se importar...

No país do “tudo bem se me convém”, do “jeitinho”, onde é normal, esperado e tolerado que pessoas eleitas – as “otoridades” – metam a mão no dinheiro público, parece que estamos inertes, reféns de um conformismo. E quando alguma reação aparece, é sempre contra entidades inimputáveis, contra o capitalismo, contra o imperialismo, contra a injustiça, contra alguns maus que nunca têm nome nem rosto. Ou cara.

Não funciona.

Se queremos botar ordem na bagunça, temos que apontar os responsáveis, dizer seus nomes em voz alta, pregar um cartaz com suas fotos na porta de entrada, chamá-los pelo que são de verdade: ladrões, oportunistas, aproveitadores, desonestos.

Ostracismo social é o nome do jogo.

Até para quem não tem vergonha.

Luciano Pires

Razão, emoção e eleição

razao-emocao-e-eleicao-iDomingo será a sétima vez que irei às urnas para eleger diretamente um Presidente da República, e não me lembro de uma campanha tão indefinida como esta. E o que mais tem me chamado a atenção é a motivação das pessoas que vão às urnas. A maioria está indo votar contra, não a favor. Explico.

Há muito os estudos psicológicos dizem que o ser humano se motiva muito mais para evitar a dor do que buscar o prazer. A perspectiva de vitória de um candidato que não representa nossos credos e valores, provoca angústia, medo, raiva ou uma combinação disso tudo, causando impacto no momento da votação. Por mais que façamos nossos julgamentos baseados em fatos e na razão, na hora do voto a emoção tem papel fundamental: queremos evitar a dor!

Basta dar uma olhada nas mídias sociais e conversas de elevador para perceber que as pessoas são muito mais passionais quando falam dos candidatos nos quais não pretendem votar, do que na defesa de seus candidatos preferidos. Não fiz nenhum cálculo preciso, mas acredito que 60% das propagandas eleitorais são focadas nos pontos negativos dos oponentes. Nas mídias sociais esse número sobe facilmente para 90%! E aí fica difícil...

No último debate, por exemplo, depois de duas horas só restou o escândalo do nanico Levy Fidelix contra o casamento gay...

Já imaginou a eleição do maior jogador de futebol do mundo, entre Neymar e Messi, onde são mostradas apenas as jogadas ruins de cada um, para que escolhamos o que menos erra? Esquisito... Mas em política é assim! Uma vez que “evitar a dor” merece muito mais atenção do que “buscar o prazer”, é natural o foco no torto em vez de no direito.

Então é errado votar com a emoção? Claro que não. É ela que nos engaja na defesa das causas que nos são caras. Devemos seguir, sim, a emoção. Mas um pouco de razão nunca é demais, não é?

De qualquer forma, não deixa de ser triste a percepção de que no domingo irei às urnas para votar contra. Contra o atraso, contra a desonestidade, contra os que, por conveniência, nunca sabem de nada, contra os que se pretendem donos da verdade, contra os que acham que têm o monopólio da ética, contra os que mentem descaradamente, contra os que tratam bandidos como heróis. Contra os que pensam apenas em si e na manutenção do poder.

Mas essa tristeza é menor que a alegria da certeza de que votarei a favor do Brasil.

Vote você também.

Luciano Pires

ACE - Associação Comercial e Empresarial de Cajamar
Rua Oswaldo de Lorenzi, 192 - Jordanésia / Cajamar - SP
Telefone: (11) 4447 4091 - E-mail: contato@acecajamar.com.br
Siga a ACE
www.acecajamar.com.br - todos os direitos reservados