Os turistas

Que sacanagem essas revistas e jornais estrangeiros que ficam falando mal do Brasil em período de Copa do Mundo. Isso me lembra um texto que publiquei em meu livro Nóis...Qui Invertemo As Coisa em 2009, quando foi lançado um filme chamado OS TURISTAS falando mal do Brasil. Leia:

“Pois o governo devia reagir, iniciando uma campanha mundial para valorizar a imagem do Brasil lá fora. Usando o cinema. Igual aos estadunidenses, que distribuem seus heróis pelo mundo desde que o cinema nasceu. Montaríamos um festival e convidaríamos os formadores de opinião para assistir aos melhores filmes brasileiros de todos os tempos.

Começa com uma obra-prima de 1950, “O Cangaceiro”, de Lima Barreto. Em preto-e-branco, mostrando pela primeira vez ao mundo uma imagem do Brasil que ninguém conhecia: o Nordeste dos cangaceiros, da seca, da miséria e da violência. Em seguida “O Pagador de Promessas”, de 1962, de Anselmo Duarte e Dias Gomes, emocionante. O Brasil do Nordeste da miséria, do fanatismo religioso e da violência. Depois Glauber Rocha, nos anos 1960. “Terra Em Transe”. “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”. Com ângulos inovadores e narrativa diferente, o Nordeste, a miséria e a violência dos cangaceiros. E tem também “Macunaíma”, de Joaquim Pedro de Andrade, de 1969. Que loucura! A miséria e o esculacho brasileiros.

Depois daríamos um salto no tempo, pois nenhuma pornochanchada seria digna de exibição lá fora. Faria mal à nossa imagem.

Vamos de Hector Babenco em 1977, com “Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia”. A história de um bandido que termina seus dias assassinado na prisão. Depois, também de Hector Babenco, em 1981, “Pixote”. Uma obra-prima, mostrando as crianças com a vida comprometida pela violência e pelo tráfico. E que tal “Pra Frente Brasil”, de Roberto Farias, de 1983? Os anos da ditadura, da repressão, da tortura e do medo? Ah, tem também “Central do Brasil”, de Walter Salles, de 1998. Que filme lindo. A solidão e a tristeza dos miseráveis com todas as suas cores, numa atuação maravilhosa de Fernanda Montenegro que quase ganha o Oscar de melhor atriz! E então, “Orfeu”, de Cacá Diegues, 1999. A imagem de abertura é linda: o Rio de Janeiro visto do alto, com a estátua do Cristo Redentor em primeiro plano. A imagem sai do Cristo e cai direto dentro de uma favela, no meio de um tiroteio. No clímax da sequência, uma bala perdida mata a mãe diante da filha pequena.

Ah... não poderia faltar... “Cidade de Deus”, de 2002. Fernando Meirelles levando o Brasil à corrida do Oscar! Obra maravilhosa, com atuações marcantes e um roteiro delicioso. O tráfico de drogas e a violência tomando conta de uma grande favela. Dez! Em seguida, de 2003, “Carandiru”, de Hector Babenco. A sequência do massacre dos 111 detentos é de tirar o fôlego!

E não podem faltar nossos indicados para concorrer pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, não é?

- 2005: “Olga”, de Jayme Monjardim, contando a emocionante história de uma idealista que foi presa, torturada, separada da filha e enviada pelo governo brasileiro para morrer num campo de concentração nazista.

- 2007: “Cinema, Aspirinas e Urubus”, de Marcelo Gomes. A sinopse do filme começa assim: “Uma paisagem seca, árida., estéril. Uma pequena vila no sertão nordestino do Brasil. Urubus voam acima”... Sentiu o clima?

- 2008: “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, de Cao Hamburguer. Um filme excepcional, passado em 1970, quando um menino na transição da infância para a adolescência é separado dos pais, que saem em “férias” forçadas para escapar da repressão militar.

Enquanto escrevo estas linhas, a expectativa é que o impactante “Tropa de Elite” siga uma carreira premiada no exterior. Mostrando uma imagem do Brasil que ninguém conhece, blablablá...

E deixei para o final um sucesso estrondoso: “Os Dois Filhos de Francisco”, de 2005, dirigido por Breno Silveira. Um filme delicioso, que conta a história de pobreza e sofrimento de uma família do interior do Brasil. Quando os meninos atingem o sucesso como dupla sertaneja e vão ficar ricos, o filme acaba...

Que tal? Com esse festival, teríamos um panorama do Brasil, pela visão de brasileiros, em meio século de produção cinematográfica, com obras-primas que pertencem à história do cinema mundial.

E aqueles gringos ignorantes teriam uma imagem real do Brasil. E não produziriam mais besteiras como esse filme “Turistas”, que faz muito mal para a imagem do Brasil lá fora.

Luciano Pires

O complexo de vira latas II

 

O Brasil está esquizofrênico. É Dr. Jekyll e Mr. Hyde ao mesmo tempo. Mas pressinto que surge por aí um novo brasileiro, distante daquela imagem do bonachão, o macunaíma preguiçoso, indolente e "nem aí". Vem aí um novo brasileiro, e com ele, um novo eleitor.

Então, para aproveitar o ano de Copa do Mundo e eleições, resolvi fazer um exercício arriscado, adaptar para esse novo eleitor um trecho do texto "Complexo de Vira Latas" que Nelson Rodrigues escreveu pouco antes da Copa de 1958. Olha como ficou:

"Mas vejamos: — o eleitor brasileiro tem, realmente, possibilidades concretas? Eu poderia responder, simplesmente, 'não'. Mas eis a verdade:

— eu acredito no novo eleitor brasileiro, e pior do que isso: — sou de um patriotismo inatual e agressivo, digno de um granadeiro bigodudo. Tenho visto eleitores de outros países, inclusive os ex-fabulosos norte americanos, que apanharam, em eleições nebulosas para presidente. Pois bem: — não vi ninguém que se comparasse aos nossos velhos eleitores. Fala-se numa Merkel. Eu contra-argumento com uma Dilma, um Lula, um FHC, Itamar, um Collor, um Sarney...

A pura, a santa verdade é a seguinte: — qualquer novo eleitor brasileiro, que se desamarrar de suas inibições e se puser em estado de graça, será algo de único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção. Em suma:

— temos dons em excesso. E só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas qualidades. Quero aludir ao que eu poderia chamar de 'complexo de vira-latas'. Estou a imaginar o espanto do leitor: — 'O que vem a ser isso?' Eu explico.

Por 'complexo de vira-latas' entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, na política. Dizer que nós nos julgamos 'os maiores' é uma cínica inverdade. Em Brasília, por que perdemos? Por que, diante do quadro político, velho e sarneyzento, o eleitor brasileiro ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo. Nas últimas eleições, alguns candidatos nos convenceram que eram superiores aos adversários. E com isso levaram a vantagem no embate. Pois bem: — perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: — porque os políticos nos trataram a pontapés, como se vira-latas fôssemos.

Eu vos digo: — o problema do eleitor não é mais de política, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo.

O novo eleitor brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem culhões para dar e vender, lá na eleição. Uma vez que ele se convença disso, ponham-no para correr com os políticos e ele precisará de dez para segurar, como o chinês da anedota.

Insisto: — para o novo eleitor brasileiro, ser ou não ser vira-latas, eis a questão."

Funcionou?

Luciano Pires

Café Brasil: Celebrando o fracasso

cafe brasil celebrando o fracassoAntes de me dedicar a palestras, podcasts, radio e internet, fui executivo de uma multinacional. Por pouco tempo, só 26 anos... Numa das mudanças da empresa, lá por 1993, tive a chance de montar para meu departamento um escritório completo a partir do zero. Chamei a arquiteta e falei:

- Sem paredes!

E construí o que foi durante alguns anos o escritório de meus sonhos. Todo mundo conectado, respirando o mesmo ar, agitando. Sempre gostei de ação, gente falando alto e andando pra lá e pra cá. Isso garantia um certo caos criativo, adrenalina, tensão e a sensação de que as coisas estavam acontecendo.

No dia da mudança surgiu um impasse: onde colocar os vários troféus, placas, quadrinhos e todo tipo de objetos que um dia marcaram alguma premiação, conquista ou celebração? Não tive dúvidas: comprei um cestão de lixo bem bonito e transparente e coloquei todos os troféus dentro dele, inclusive os novos. E deixei bem à vista, na entrada do departamento. A turma estranhou, mas logo entendeu a mensagem: o sucesso do passado não garante o futuro.

Semana passada, limpando minha caixa postal encontrei um email:

“Olá Luciano. Sobre os livros apresentados, não tivemos sinalização positiva de nosso Conselho Editorial. Agradecemos sua atenção e estamos à disposição. Atenciosamente, Fulana de Tal, novembro de 2010”

Era uma resposta da Editora Saraiva, que me havia sido indicada por um conhecido como uma possível editora para meus livros. O recado implícito do email era: “seu trabalho não nos interessa”.

Formatei o email bem bonitinho, imprimi e pedi para emoldurar. Minha assistente estranhou:

- Pô, mas o conteúdo é negativo!

Pois é. Se aqueles troféus no lixo mostravam que o sucesso do passado não garante o futuro, esse quadrinho me lembrará diariamente que tem gente que não se encanta com meu trabalho, que o fracasso faz parte de meu dia a dia, que sou falível como qualquer ser humano. Que não estou com a bola toda.  E cada vez que eu entrar em minha sala e encontrar o quadrinho, vou me sentir provocado e desafiado:

- Ah é, é? Vou mostrar pra eles!

Isso é o que eu chamo de “celebrar o fracasso”: aprender com nossos insucessos, transformar os momentos em que quebramos a cara em novos pontos de partida. Receber um “não” como um desafio. Inverter o sinal, transformando o que deveria ser um fator desmotivador, numa provocação capaz de incendiar meu espírito e – acima de tudo – me inspirar.

Oba! O quadrinho chegou!

Deixa pendurar na parede.

Luciano Pires

A guerra interminável

Em 2013, conforme o Sistema de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, tivemos no Brasil 56.337 assassinatos, chegando à taxa de 29 mortos para cada 100 mil brasileiros. A Organização Mundial da Saúde considera aceitável no máximo 10 mortes a cada 100 mil habitantes. A França tem 1,1, Portugal tem 1,2, Estados Unidos tem 4,2 e a Noruega tem 0,6, só para efeito de comparação.

Nós temos 29. Nunca antes na história deste país.

E é necessário olhar nossos números com desconfiança, pois existem suspeitas de que estejam maquiados pelos governos estaduais de diversas formas. Eles podem ser consideravelmente maiores.

Conforme relatório da ONU, na América Latina e Caribe que têm população estimada em 600 milhões de pessoas, são assassinadas 100 mil pessoas por ano. O Brasil, com um terço dos 600 mil habitantes, responde por mais da metade dos assassinatos.

Observação óbvia, mas necessária: é assim que se mede a violência, mortes a cada 100 mil habitantes. Desse modo é possível comparar um estado com 30 milhões de habitantes com outro com 2 milhões. E os números estão aí: enquanto Santa Catarina tem 12,8 mortos por 100 mil, São Paulo tem 15,1, Rio de Janeiro tem 28,3, Bahia tem 41,9, Pará tem 41,7, Ceará tem 44,6 e Alagoas, o campeão, tem 63,3!

E esse aumento se dá num cenário em que, ao menos em teoria, milhões saíram da pobreza para aquela "classe média" que o governo criou. E quando se faz uma comparação da violência por estados, ela explode no nordeste, região do Brasil que mais evoluiu em termos econômicos.

Cai a pobreza e a violência sobe. E agora?

Bem, agora vou mexer num vespeiro. Os dois estados brasileiros com índices mais baixos são Santa Catarina com 12,8 e São Paulo com 15,1. O que acontece nesses estados que não acontece nos outros? Qualquer explicação rápida e óbvia, como melhoria dos índices econômicos ou campanhas de desarmamento não serve, pois isso aconteceu em todo o país.

Será porque São Paulo é o estado que mais prende? Segundo o Anuário de Segurança Pública, São Paulo tem 633,1 presos por 100 mil habitantes com mais de 18 anos. No Rio, com quase duas vezes mais mortos por 100 mil que São Paulo, a taxa é de 281,5 presos. A Bahia, que tem três vezes mais mortos por 100 mil que São Paulo, prende 134,6.

Essa discussão dá pano pra manga.

Em 1980 a taxa era de 11,7 para cada 100 mil. O Governo de Fernando Henrique entregou em 2002 o índice de 28,5; o governo do PT começou com 28,9 em 2003 e bateu o recorde com 29 em 2013. O descontrole da violência é obra de todos os governos brasileiros desde a redemocratização, nenhum, repito, nenhum governo, seja do PMDB, PRN, PSDB ou PT, seja de esquerda ou “neoliberal”, seja progressista ou conservador, seja de "direita" ou de esquerda conseguiu ganhar essa guerra interminável.

E se esse assunto não é prioritário, não sei o que pode ser.

Boa Copa.

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