70:20:10

Café Brasil

Um leitor me escreve dizendo das dificuldades para escolher seus candidatos para as eleições, pois parece que todo o processo está dominado pelos postulantes à presidência. Quando fui responder, uma coincidência me fez lembrar da relação 70:20:10 que está tão em moda no ambiente empresarial. Se você não sabe o que é, é simples.

Normalmente achamos que nosso aprendizado vem prioritariamente do estudo formal, com aulas, leituras e professores, não é? Mas a partir de pesquisas realizadas no Center for Creative Leadership, entidade global voltada ao treinamento executivo, pesquisadores concluíram que os líderes bem sucedidos aprendem as lições de forma efetiva utilizando a seguinte relação: 70% do aprendizado se dá no dia a dia, com a mão na massa; 20% se dá a partir do contato com outras pessoas e apenas 10% vem de cursos e leituras. Assim, as empresas mais antenadas estão trazendo para o dia a dia, para a responsabilidade de cada um, as oportunidades de aprendizado, com grande sucesso.

Bem, e as eleições? Vamos lá:

Hoje ao lidar com a escolha dos candidatos, até pela pressão da mídia, normalmente focamos nos cargos mais importantes e glamorosos, deixando pra lá os de menor expressão. É até natural que seja assim, pois candidatos a Vereador e Deputado Estadual, por exemplo, são pessoas que circulam por nosso dia a dia, que provavelmente conhecemos há muito e de quem pouco ou nada esperamos. Não tem graça. Votamos no Palhaço Perereco e na Maria Sapatão sem preocupação só para tirar um sarro, manifestar nosso desprezo pelo processo eleitoral, agradar um amigo ou nos livrar do voto o mais rápido possível.

Mas quem age dessa forma não considera que esses Vereadores e Deputados Estaduais são a matéria prima para os próximos Deputados Federais, Senadores, Prefeitos, Governadores e Presidentes da República. Se alimentamos o processo com matéria fecal, como reclamar do resultado depois? É da "escolinha" composta de Vereadores e Deputados que daqui a alguns anos sairá o próximo Senador, Governador ou Presidente. Qualquer processo de depuração tem que começar, portanto, pela base!

Passei então a receita para o leitor:

Inverta a fórmula que você usa hoje! Dedique 70% do seu tempo à escolha dos Vereadores, Deputados Estaduais e Federais ; 20% aos Senadores e Governadores e nada mais que 10% ao Presidente da República. Dessa forma você terá a chance de expurgar parte dos bandidos e oportunistas ainda no ninho, ajudando a elevar o nível dos candidatos que um dia disputarão os mais altos cargos da nação. Sem contar que, agindo assim, você melhorará o nível das decisões que essas pessoas tomarão na sua comunidade.

Voltando ao aprendizado: esta será a sétima eleição pós redemocratização do Brasil. E parece que não aplicamos aquela regra de aprender 70% com a prática. Pois tá na hora de começar.

Ah, é demorado? É. Por isso tem que começar já para ver resultado dentro de 20 anos.

Dica: http://www.excelencias.org.br/quemquer/. Aqui estão todos os candidatos, com histórico, doadores de campanha, declaração de bens, quase tudo que você precisa para aplicar seus 70:20:10.

Tá esperando o quê?

Luciano Pires

Muito além das lixeiras

muito-alem-das-lixeiras-iAcabo de viver uma experiência privilegiada como palestrante do 9º. Circuito Aprosoja 2014, evento promovido pela Aprosoja – Associação dos Produtores de Soja e Milho do Mato Grosso. Visitando 22 cidades, percorremos cerca de 6500 km e falamos sobre mercado e conceitos de gestão e liderança para aproximadamente 3500 participantes entre produtores rurais, empresários, autoridades e lideranças do agronegócio.

Como bom cidadão urbano, embarquei para a MT com a imagem do agronegócio que recebemos pela imprensa: é ele que sustenta a balança comercial brasileira há anos, mas os caras desmatam pra caramba, usam agrotóxicos descontroladamente, grilam terras dos índios e cultivam produtos transgênicos que vão provocar câncer em nossos filhos. Com pouca variação, provavelmente essa é a imagem que você também tem.

Bem, fui lá ver. E o que encontrei desfez a série de equívocos cuidadosamente implantada em minha mente por professores, militantes, jornalistas e outros interessados em fazer com que, ao entrar em nossa maravilhosa cozinha, só tenhamos olhos para as lixeiras.

Encontrei uma região exuberante, colonizada em sua maioria por gente do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande Sul, os tais “loiros-de-olhos-azuis” que “você-sabe-quem” detesta. Vi cidades lindas, planejadas, nascidas de ambiciosos projetos de colonização, com ruas largas e retas, muito verde, limpíssimas, com construções novas e aquele senso de comunidade que há muito se perdeu nas grandes cidades. Visitei imensas fazendas do agronegócio e médias fazendas de agricultores. Andei pelas plantações, peguei nas mãos calejadas das pessoas, conversei livremente com elas, olhei em seus olhos. Sobrevoei gigantescas áreas de plantações, áreas preservadas e reservas indígenas. Percorri centenas de quilômetros de estradas que são verdadeiras armadilhas para os motoristas, pessimamente conservadas, esburacadas, sem acostamento e que matam centenas de pessoas todo ano. E também percorri as novíssimas estradas em construção que resolverão grande parte do nó logístico da região. Visitei terminais ferroviários em abandono, um desperdício para um país que precisa desesperadamente de canais para escoar e armazenar os grãos colhidos, mas também visitei o impressionante novo terminal de Rondonópolis que fará a cidade expandir assustadoramente em pouco tempo.

Exercitei até o limite a minha curiosidade, especialmente nos temas mais delicados. E montei uma página no Facebook com o roteiro das viagens e os aspectos históricos e econômicos das cidades visitadas. Lá falo sem paixão militante sobre agricultura e agronegócio, uso de defensivos agrícolas, desmatamento, preservação do meio ambiente, transgênicos, política indígena, envenenamento de águas por agrotóxicos e outros temas quentes. Falo também sobre o Marechal Rondon, os irmãos Villas Boas, Olacyr de Moraes, Blairo Maggi e a estranha história de seu troféu Motosserra de Ouro. Descobri até mesmo um conflito armado que tomou dimensões de guerra civil na região de Alto Garças por volta de 1915, provocando centenas de mortes num conflito que envolveu garimpeiros, coronéis, jagunços, moradores e tropas do governo. Parece coisa de cinema!

No final retornei com a certeza que, quando se fala em agronegócio no Brasil, temos infinitamente mais razões para orgulho do que para vergonha. Especialmente se compararmos o Brasil com outros países. Quaisquer países.

O que falta? Chegar a um equilíbrio entre desenvolvimento e preservação, missão quase impossível enquanto as discussões permanecerem nas mãos de militantes embandeirados e políticos mesquinhos. Esse é o nó.

Convido você a visitar o http://on.fb.me/1r38xAM e conhecer um pedaço do Brasil que está muito, mas muito além das lixeiras.

Luciano Pires

#OrgulhoEVergonha

Elaboro este texto no dia 9 de Julho de 2014, quarta feira das cinzas, tentando aplacar os sentimentos desta manhã de ressaca dos 7 x 1 que a Alemanha aplicou na Seleção Brasileira em eliminatória da Copa do Mundo. Não apenas pelo jogo, que é inexplicável, mas pelo momento que vivemos no país.

Escrevi muito tempo atrás e repito: a Copa no Brasil seria exatamente como o Carnaval na Marquês de Sapucaí, no dia do evento fazemos o maior espetáculo da terra, quebra um carro aqui, cai um destaque ali, mas no geral é maravilhoso. Dois dias depois as fantasias desmancham, as cores desbotam, os brilhos esmaecem, a cola solta, a tinta descasca, os ferros enferrujam e o que não é descartável fica empilhado num terreno baldio, deteriorando. E a turma vai pagando as contas até recomeçar tudo no ano que vem.

Antes da Copa vimos manifestações por todos os lados pregando o desastre, dizendo que tudo daria errado. Matérias pelos jornais estrangeiros dando conta dos perigos de vir ao Brasil, da prostituição, da miséria, da corrupção, dos desmandos. Por ver nas críticas, várias delas injustas, um fundo de verdade, senti vergonha.

Passada a Copa os estrangeiros retornam para suas casas deslumbrados com o Brasil, com a festa, com nossa simpatia, nosso sol, praias, educação e alegria. Os estádios ficaram lindos, os jogos foram emocionantes, com talento e drama na medida exata (até os 7 x 1, pelo menos). A Copa do Mundo no Brasil, assim como o desfile das escolas na Marquês de Sapucaí, foi um sucesso. E isso me enche de orgulho.

Mas quando penso na prioridade que demos à Copa enquanto problemas fundamentais continuam de lado, sinto vergonha.

E o espetáculo da torcida e dos jogadores no momento do hino? Como não se arrepiar, não se emocionar, não cantar junto? Me deu orgulho!

Mas acabou, hoje é quarta feira das cinzas do Massacre do Mineirão. Os 7 x1 foram o tapa que o mocinho dá na mocinha descontrolada para ela acordar para a realidade.

E agora? Não tem juiz pra botar a culpa. Não tem gramado pra botar a culpa. Não tem onde botar a culpa, a não ser em nós mesmos. É hora de retornar à realidade, aos problemas que todos conhecemos, e agora com os 7 x 1 nas costas. Que vergonha.

Mas o Massacre do Mineirão pode ser pedagógico: talvez – eu disse talvez – extrapole o futebol e contribua para acabar com a arrogância, o “jeitinho”, o “a gente se vira”, o “na hora dá certo”. Para mostrar que é impossível levar um sonho adiante sem gente capaz de colocar em prática um plano. Mostrar que o “mais ou menos” é pouco, que talento é fundamental, mas sem disciplina e aplicação fica dependendo da sorte. E que talvez Deus não seja só brasileiro.

- Mas gente, Copa do Mundo é só futebol, que é só um jogo!

Verdade. Mas a Copa do Mundo no Brasil foi também uma metáfora sobre orgulho e vergonha.

Lembro-me então que um leitor chamado Claudio, ao comentar um artigo em que eu falava do orgulho e da vergonha de ser brasileiro, soltou esta pérola: “... se tenho orgulho ou vergonha do meu país? Acho que tenho vergulho. Ou orgonha. Vale ter vergonha e orgulho ao mesmo tempo?”

Vergulho e orgonha... Taí. Tenho orgonha de ser brasileiro.

E se tivéssemos conquistado o hexa eu teria vergulho.

O que, no fim, dá na mesma.

Luciano Pires

O infinito talento

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Ontem me lembrei de um discurso de Ruy Barbosa no Senado, em 1914, que talvez você já conheça, mas que vale repetir:

“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar das virtudes, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”.

Cem anos atrás... Mas parece falar do Brasil de hoje, não é?

Ora bolas, se é assim então, talvez devamos entender – e aceitar - que as crises atuais, que julgamos serem as mazelas do Brasil, de atuais nada têm. São parte da natureza humana, sempre existiram, sempre existirão enquanto os seres humanos estiverem interagindo por aqui e alhures. E se é preocupante a existência de pessoas com valores morais discutíveis ou portadoras de incompetência obsessiva em posições de poder, o que preocupa de verdade é a falta de evolução na forma como nós, o povo, tratamos esse assunto. Definitivamente nos acostumamos com o malfeito, como constatou Ruy Barbosa um século atrás. E isso me parece uma estagnação. Ou até mesmo involução.

Muita gente assiste neste momento, fingindo que não é com ela, várias lutas nos tribunais para barrar candidatos que têm a ficha suja. Mesmo os que têm culpa no cartório, que já foram condenados na forma da lei e que deveriam ser despachados sem mais discussões, estão apresentando recursos e teimando em continuar na peleja. Paulo Maluf, por exemplo, só foi cassado pelo voto de Minerva do presidente do tribunal, depois que seis juízes, apesar das provas irrefutáveis apresentadas, empataram em 3 a 3. Eu disse juízes e não zés manes da esquina.

Em Brasília, o ex-governador Arruda, com a ficha encardida de tão suja, aparece na frente nas pesquisas de intenção de votos! A todo momento surge na televisão cheio de sorrisos e promessas, enquanto se discute sobre a cassação de seu direito de se candidatar. E o mesmo se repete em praticamente todos os estados: gente sem honra, injusta e má na televisão fazendo cara de pessoa legal e pedindo votos.

E sofro ao imaginar que provavelmente grande parte dessa gente se reeleja.

Ah, sim, tem os candidatos a presidente! As campanhas são um desfile de acusações, cada um tentando expor mais os podres dos outros. Até um ponto em que o povo, anestesiado, parece não mais se importar com a desonra, a injustiça e a maldade. Se todos são podres, talvez podre seja o padrão!

Será que Ruy Barbosa perdeu seu tempo? Será que o povo não aprendeu com o passado? Ou melhor, aprendeu sim, a desanimar das virtudes, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto?

Concluo que muito mais que a valorização da honra, da virtude e da honestidade, a verdadeira habilidade que desenvolvemos em 100 anos foi o sistemático, onipresente e infinito talento para a cara de pau.

Meu, seu, deles.

Se a carapuça não servir, não se preocupe. Não estou falando com você.

Luciano Pires

Seleção ou sucessão

Durante a Copa, somos bombardeados pela mídia falando dos convocados e do esquema de jogo. Milhares de páginas e horas discutem o plano do treinador, as estratégias e táticas, as ameaças e oportunidades e os competidores. Afinal, tem coisa mais importante que ganhar a Copa?

Tem.

Na campanha presidencial, assistimos aos discursos, a propaganda televisiva e a lenga-lenga de sempre de três ou quatro candidatos com chances de assumir a direção do Esporte Clube Brasil S.A. E o que discutimos?

Qual marqueteiro levaria vantagem, qual campanha televisiva seria a mais criativa, os novos ternos do candidato A, a antipatia do candidato B, o falatório do C, a mulher do B. Discutimos os acessórios. O principal, os programas, as propostas concretas para dar continuidade ao crescimento do país, ficam em segundo plano.

Se discutíssemos a sucessão como discutimos a Seleção, com certeza teríamos mais inteligência, valor e consequência. Mas parece que a Seleção é mais importante que a sucessão.

Essa discussão vazia cria os analfabetos políticos, gente que se orgulha de dizer que não gosta de política, que não vai votar “nisso que está aí”, votando em branco ou anulando. Ou simplesmente não votando. Uma espécie de protesto burro, que coloca nas mãos de terceiros seu próprio destino.

Tenho notado no Brasil uma profunda ignorância sobre o que vem a ser política. Como faz com todos os problemas complexos, inclusive com o esquema tático da Seleção, o brasileiro simplifica. Reduz política a troca de favores, a conchavos, a coisa de gente desonesta disposta a tirar vantagens pessoais...

E tudo passa a ser “sempre assim...” e vira piada. E quem vota sem analisar propostas, apenas interessado em benefícios imediatos ou no discurso “bonito” dos candidatos, é o que? Semi-analfabeto político!

Pois tenho uma má notícia. Nosso destino está nas mãos de alguns milhões de semi-analfabetos políticos! Alguém duvida?

Essa constatação me leva a uma súplica: que os meios de comunicação de massa que hoje discutem o acessório, iniciem um processo de alfabetização política. Ainda há tempo.

Em vez de falar da barba aparada do candidato A, falar de suas propostas. Em vez de falar do primo do candidato B, falar de sua receita para o Brasil voltar a crescer. Que tal analisar de forma objetiva, e inteligível para a população, os planos dos próximos candidatos? Explicar o que existe de bom e o que é lenga-lenga? Dizer por quais razões não dá para praticar uma ruptura ou manter o modelo atual? Avaliar o currículo de cada candidato e suas possibilidades de cumprir as promessas? Avaliar quem são os prováveis ministros de cada candidato, quais suas ideias?

Da mesma forma como fazemos com a Seleção.

Essa comparação, se repetidamente feita, com linguagem simples e didática, prestará ao Brasil um serviço maior que os milhares de minutos e páginas gastos diariamente com superficialidades.

Quando a mídia de massa começar a tratar seus leitores e espectadores como algo mais que analfabetos políticos, começaremos a mudar este País. E talvez ganhemos algo mais importante que a Copa.

Este texto faz parte de meu livro Brasileiros Pocotó, foi escrito 12 anos atrás, durante a Copa do Mundo de 2002.

Luciano Pires

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